quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Falar faz falta...



Há imenso tempo, que João não falava com a mulher.
Fechava-se. E ia entristecendo.
A mulher, por sua vez, também já nada lhe perguntava, por lhe ser incómodo não obter resposta.
Mais do que barreiras, Joana sentia que tinha-se criado um fosso entre ambos.
Joana era tímida, e refugiava-se no silêncio, com medo de ser magoada.
Os silencios tinham começado por incompatibilidade de dialogar, ou de conversar e porque João queria ter sempre a última palavra.
Joana compreendia que João tinha tido uma infância e uma adolescência dificeis.
Carencia de afectos por ter sido afastado para um colégio militar.
Joana sofre e João também.
Joana consciente de que o seu casamento estava afundando, mas lucida, pede ajuda profissional.
João acha que o problema é de Joana e assume que ela tem uma depressão.
Cria-se um equívoco.
Joana é apenas tratada duma depressão.
João continua triste, apagado, silencioso.
Qualquer assunto comezinho e trivial é-lhe penoso falar. Fecha-se mais.
João sofre. Joana sofre, mas afasta-se, e quer viver.
Joana não quer deixar-se ir com o marido, naquele silencio doentio.
Desconhece com quem passou vinte e dois anos da sua vida.
Joana não sabe ajudá-lo, mas quer. Quer salvar a sua relação. Mas sem a concordância de João e a intervenção dum profissional, não consegue.
Joana começa a admitir de que sente uma enorme gratidão por João, mas que o amor se foi, ou está simplesmente adormecido.
Volta a pedir ajuda ao profissional, mas a resposta é conclusiva. Já nada há a fazer, face àquilo que Joana pensa sentir já pelo marido.
E o fosso vai aumentando. E Joana apenas queria ter uma relação normal.
Duas pessoas que se falassem e comunicassem. Conversassem.
Joana sente-se rejuvenescer quando começa a sentir que é capaz de voltar a amar.
Joana sente-se viva. E isso basta-lhe.
Joana é uma pessoa carente de afectos, mas decidiu não querer mais ninguém.
Está cansada de se dar. De tentar proporcionar aos filhos, à familia e aos amigos, aquilo que gostaria de ter para ela.
Mas Joana não desistiu de tentar pôr João a conversar, nem que seja com os amigos.
Ela precisa dele financeiramente dele, ou talvez não precise, mas é mais cómodo.
E João pode vir a precisar dela. Na saúde e na doença.
E o amor? Talvez esteja nesta abnegação, neste conformismo de Joana.
Porque não está certamente no comodismo de Joana, nem no silêncio de João.Mas se não conversarem nem João nem Joana conseguirão voltar a amar e serem felizes.

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